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Edson Athayde, vive e trabalha em Portugal há
quase 20 anos. Brasileiro de origem, há muito que se naturalizou português.
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E foi aqui que desenvolveu uma notória carreira como
publicitário, sendo mesmo o mais premiado da história do país, tendo ganho,
entre muitos prémios, 7 Leões em Cannes.
Além de criar anúncios, Edson também colaborou, enquanto cronista, com jornais e revistas e já publicou 7 livros, que regularmente chegaram a várias reedições. Depois de uma passagem pelos EUA, onde esteve a estudar cinema em Los Angeles, Edson agora vive no eixo Barcelona-Lisboa. Enquanto cronista, Edson segue uma linha de humor leve e gosta de escrever sobre cinema, viagens e comportamento. |
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Na escola tentam nos ensinar que as coisas acontecem uma
de cada vez, num cronologia perfeita de factos, intenções e consequencia. Isso
nem está totalmente errado, apenas não se coaduna com a quantidade de coisas
sem sentido que vão acontecendo ao longo do tempo nas nossas vidas (pessoais e
profissionais). Há mais ou menos um ano, estava a reflectir sobre esse assunto.
Isso gerou um texto que dizia mais ou menos o seguinte:
"Não tente, assim de repente, andar em linha recta. A coisa não vai funcionar. Não tente, amigo, nem pense que a recta leva ao destino, que a recta é o caminho. A recta só é certa para quem não sai da linha, para quem acredita que a vida é um comboio, desses que têm maquinista, que têm controlo, que têm limites, que têm travões, que têm sentido.
Ande torto, rapaz! Ordenei-me com tal valentia que até pensei que de uma voz divina se tratava. Imaginei que Random, deus grego do aleatório, havia descido outra vez à Terra, dessa feita só para me alertar: "Vá ser gauche, como Drummond."
"Não tente, assim de repente, andar em linha recta. A coisa não vai funcionar. Não tente, amigo, nem pense que a recta leva ao destino, que a recta é o caminho. A recta só é certa para quem não sai da linha, para quem acredita que a vida é um comboio, desses que têm maquinista, que têm controlo, que têm limites, que têm travões, que têm sentido.
Ande torto, rapaz! Ordenei-me com tal valentia que até pensei que de uma voz divina se tratava. Imaginei que Random, deus grego do aleatório, havia descido outra vez à Terra, dessa feita só para me alertar: "Vá ser gauche, como Drummond."
O erro da recta como proposta de vida ocorreu-me esta
semana, no cimo do Morro do Pai Inácio, um tabuleiro gigante de rocha, com mais
de 1100 metros de altura, na Chapada Diamantina, interior da Bahia. Há pouco
mais de 20 anos estive a olhar o mesmo horizonte que o Pai Inácio proporciona.
Digo o mesmo, pois o que são 20 anos no relógio de uma montanha?
A minha primeira incursão na Chapada foi pouco antes de eu decidir ir ("vir?", já não sei ao certo) viver para Portugal. Naquela época, eu tentava escrever na pedra os meus planos e pensava que indo sempre em frente, seguindo a direcção apontada pelo meu nariz, não correria o risco de tombar com as minhas costas. A juventude é um poço infinito de ingenuidade.
Entre o ontem e o hoje, houve um confuso bolo recheado de momentos, pessoas, actos e atitudes, que por vezes cheirou a mofo e outras a cravo, canela e alecrim.
Desço o Pai Inácio em meio a algumas dezenas de jovens, plenos de sorrisos e sardas. Em vez de melancólico com a revelação do erro da recta, sinto-me revigorado e com imensa vontade de bradar ao gentio (ou postar no Facebook, o que dá mais ou menos no mesmo) a notícia: amigos, sejam mais tortos, para serem menos mortos. Procurem caminhos torcidos. Desconfiem dos certos. Fujam dos sem arestas, dos sem espinhos, dos sem espigas, dos sem espetos, dos perfeitinhos. Mas, sobretudo, não andem em linha recta"
A minha primeira incursão na Chapada foi pouco antes de eu decidir ir ("vir?", já não sei ao certo) viver para Portugal. Naquela época, eu tentava escrever na pedra os meus planos e pensava que indo sempre em frente, seguindo a direcção apontada pelo meu nariz, não correria o risco de tombar com as minhas costas. A juventude é um poço infinito de ingenuidade.
Entre o ontem e o hoje, houve um confuso bolo recheado de momentos, pessoas, actos e atitudes, que por vezes cheirou a mofo e outras a cravo, canela e alecrim.
Desço o Pai Inácio em meio a algumas dezenas de jovens, plenos de sorrisos e sardas. Em vez de melancólico com a revelação do erro da recta, sinto-me revigorado e com imensa vontade de bradar ao gentio (ou postar no Facebook, o que dá mais ou menos no mesmo) a notícia: amigos, sejam mais tortos, para serem menos mortos. Procurem caminhos torcidos. Desconfiem dos certos. Fujam dos sem arestas, dos sem espinhos, dos sem espigas, dos sem espetos, dos perfeitinhos. Mas, sobretudo, não andem em linha recta"




















